
Cartas para as abstrações, tatuagens para espantar o medo, livros em busca de amor e consumismo para suprir carências emocionais. Postura que estampa rebeldia. Camaleoa por cansaço de si mesma, da imagem no espelho, ou do que reflete na vida. Uma personalidade no mínimo forte, que sintetiza muito de cada mulher que eventualmente passar os olhos por essa coluna. Ao ler Fernanda Young, vemos verdades femininas abordadas de formas sutis, ou simplesmente jogadas na nossa cara sem preocupações de onde irá atingir.
Pergunto-me, a partir dela e por ela, quem nunca sentiu o peso de ter que estar bonita sempre? O cabelo, as unhas, o corpo, tudo deve estar perfeito, alinhado, bem cortado e bem pintado. Tudo para agradar os olhares masculinos, sentir a inveja nos olhares femininos, ou simplesmente para não sair dos padrões pré-estabelecidos para a beleza. Enquanto sentimos, Fernanda exprime através de gestos, raspando os cabelos entre lágrimas, gritando para o mundo que não suporta mais a pressão e tem que escapar.
Quem nunca sentiu vontade de escrever cartas para o tempo que há muito lhe abandonou, para o príncipe encantado que te decepcionou ou para o pênis que não encontra o caminho certo da sua felicidade? Talvez passando para o papel certas indagações que ficam martelando a nossa cabeça, possamos aliviar as tensões, o estresse, ou apenas ter uma certeza sua de que tudo isso que te aflige vai mudar. É claro que abstratos não respondem cartas, mas você pode modificar o que está te deixando infeliz.
Escrever pode ser a direção encontrada por ela, para brigar com os sentimentos e as eventualidades. De dizer que essas mesmas eventualidades não podem simplesmente aparecer nas nossas vidas sem que sejam punidas pelos excessos de transtornos que nos causam. Como nas crônicas espalhadas nas revistas para o público feminino, que muitas de nós lêem todos os dias, onde páginas estampam aquela mesma beleza sonhada, suada, cansada e tantas vezes inconveniente. Contradições de um mundo mal escrito.
Quem nunca se viu aflita diante da maternidade e das exigências que a mesma impõe? E quem tem a coragem de assumir que não consegue se enquadrar nos padrões maternos, mas mesmo assim teve sensibilidade de criar meninas felizes, honestas e gentis? Quantas sofrem, assumindo papéis distintos ao mesmo tempo, enlouquecendo sem saber qual deles deve cumprir primeiro. Mãe, amante, amiga, profissional eficiente, bonita, e acima de tudo, além de tudo, bem humorada.
Quem nunca precisou de colo e sentiu que poderia ser bem mais amada do que é? Quem nunca foi ao shopping compensar carências afetivas? E que mal há nisso? Fernanda afirma, reafirma e torna a dizer sempre que perguntada, que seu sonho é ser amada, ter suas carências supridas e poder ostentar a liberdade sem ter que lutar contra críticas apontando o dedo na sua cara. Infelizmente, as pessoas ainda não se acostumaram com mulheres fortes, bem sucedidas, mas que no fundo ainda sonham com um príncipe encantado e com o jargão: Felizes para Sempre. Que dirá ouvir da boca de alguém tão excêntrico como Young, que assume o sentimentalismo sem descer do salto e sem medo de correr os riscos.
Para as Fernandas, Marianas, Alines, Robertas, Denises e todas as outras, que como mulheres sabem bem do que estou falando e ainda assim, levam a vida com todo o charme que lhe é peculiar, adocicando o cheiro do ar, enfeitando as esquinas e desfilando pelo mundo como quem entende que ser sensível não é ser o sexo frágil e sim, o sexo completo.
Alliny Araújo – Jornalista
@Dependy
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